Sobre homofobia, ratos e Cazuza

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“Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro…Transformam o país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro”. Podemos dizer que essas frases – retiradas de “O tempo não para” (Cazuza) – falam aos monopólios, reivindicando um olhar mais justo perante excluídos, principalmente no âmbito cultural e ideológico. Podemos também entender que Cazuza tenha sido, de fato, tudo o que a música diz. E talvez, justamente por isso, ele tenha razão em seu posicionamento – ninguém melhor para falar do assunto.

Quando se fala de dependentes químicos, viciados de toda natureza, gente pobre que se voltou à criminalidade, o entendimento da segregação geralmente é aceito, até em níveis de vitimização e piedade, tolerância com o marginalizado. No entanto, o posicionamento é diferente quando o assunto é homoafetividade. Especula-se causas por doença, degeneração moral, tentativa de destruição da instituição familiar, entre outros. Esses argumentos logo são derrubados quando se percebe que não existe mobilização de homossexuais (bi, trans, etc.) contra a família e/ou valores que permitem a convivência em sociedade. Pelo contrário, são os defensores da heteronormatividade que se empenham em impedir o cumprimento de direitos [dos] e a formação de famílias de homossexuais.

Existe um dogmatismo fanático que prega heterossexualidade a todo custo, utilizando-a como símbolo de que há apenas uma alternativa “correta” – como se caráter se resumisse à orientação sexual. Quem defende a não pluralidade de opiniões costuma afirmar que o faz em defesa da “família natural” [por Deus, o que é isso, afinal?!], do modo como está na Bíblia [como se não houvessem milhares de interpretações…], que acha que deve ser como a natureza fez [vá morar em uma caverna, então], etc.

A homofobia (esteja disfarçada em negligência, medo, nojo, etc.) é apenas uma das demonstrações de medo que certas pessoas e grupos têm de perder o controle sobre um monopólio em que alguns tomam a si mesmos como padrão normativo. É o medo de que cada vez mais gente passe a pensar fora de “cabrestos” culturais impostos como forma de controle e (quase) regulamentação, que prega conduta única entre as diferentes pessoas.

Entender o outro como diferente e ruim (ladrão, bicha, maconheiro) – e até mesmo perceber o próximo como “outro” e não pertencente ao “nós” mostra como se estabelecem bloqueios, mecanismos de segregação que a sociedade vai aceitando, unindo a outros conceitos considerados críveis. Isso torna a marginalização (não pertencimento) algo natural e, para alguns, até desejável.

Mas, afinal, de que nos serve construir tantas barreiras? A quem isso é funcional? A que interesses serve? É apenas efeito da imaginação medrosa de meia dúzia de ratos receosos pela mudança. Permito-me encerrar cantando: “Tuas ideias não correspondem aos fatos. O tempo não para!”

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