“Quando resolvi presentear meu filho com uma boneca…”

988598_595066567180919_1194241911_nAutora do livro “O menino que ganhou uma boneca”, Majô Baptistoni conta como é abordar questões da sexualidade entre as crianças (e seus brinquedos)

  Qual foi a sua motivação para tratar de um tema que aborda a distinção entre os papéis de feminino e masculino?

Bom, antes do espetáculo veio o livro. A opção pelo tema veio de uma experiência pessoal quando resolvi presentear meu filho com uma boneca. Para mim isso era algo mais que normal, ele gostou muito e a boneca era um dos seus brinquedos preferidos. Porém, quando ele começou ir a escola, fazer novas amizades, enfim, quando teve contato com a sociedade conservadora, a coisa mudou. Ele passou a ter vergonha da boneca e só brincava escondido até que um dia não quis mais brincar, pois todos os amigos riam dele. Então, imaginando que poderia haver outros meninos passando pela mesma experiência, resolvi escrever o livro que mais tarde virou teatro.

 Em geral, qual é a reação da plateia? Alguma vez uma dessas reações já te surpreendeu?

A reação da platéia é sempre muito positiva. Quando ouvem falar no título, ficam chocados, tiram sarro, acham engraçado, mas depois que assistem o espetáculo, é incrível como mudam sua forma de ver essa questão. O espetáculo não é agressivo. Tentamos mostrar de forma singela, que brincar de bonecas não vai deixar o menino afeminado. Cada um é o que é, e a única mudança que o brinquedo pode trazer na vida da criança é torná-la mais dócil, carinhosa, despertando-a para a importância da participação do pai nos cuidados com o filho. Não existe uma “moral da história”. O que pretendo é apenas mostrar que não há nada de errado em o menino brincar com bonecas, assim como não há mal algum em meninas brincarem com carrinhos e martelinhos.

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 Pesquisas mostram que as mulheres ainda ganham menos e são minoria em cargos de liderança. Isso significa que, apesar dos avanços na sociedade, ainda existe uma discriminação. Na sua opinião, a educação que os pais dão aos filhos influencia ou resulta nessa realidade?

Essa mudança é lenta. Se olharmos para trás veremos que já houve um grande avanço. Penso que de agora para frente depende de cada uma de nós. A criança tem de crescer vendo o exemplo dentro de casa. Como o menino vai acreditar que as mulheres têm os mesmos direitos se a rotina dentro da sua casa mostra uma realidade bem diferente? Cabe aos pais, e em especial às mães, trabalhar a autoestima das filhas, fazer com elas acreditem no seu potencial e ensiná-las que homens e mulheres têm os mesmos direitos, dentro e fora de casa. E o mesmo deve ser feito com os meninos, ensiná-los a respeitar as meninas e entender que qualquer pessoa tem o direito de escolher o que quer ser ou fazer na vida. E que quando executam a mesma tarefa, não tem por que o salário ser diferenciado. Temos de preparar as novas gerações, pois essa que está aí é bem mais difícil de mudar seus valores.

5. A peça trata da distinção dos papéis masculino e feminino, mas também abre espaço para o questionamento da intolerância contra o que é diferente. Então, quais são os avanços que você sente em relação à discriminação atualmente?

 Acho que já mudou muito, mas quem é “diferente” ainda tem de enfrentar muita discriminação. A sociedade dita padrões de comportamento e tudo que foge disso é visto como feio, errado, pecaminoso. A intolerância ainda é muito grande, especialmente entre crianças e adolescentes. Mas acredito que deva haver um trabalho incansável dos pais e professores na tentativa de mudar isso. O problema é que muitas vezes o preconceito está no adulto e ele não tem como ensinar uma coisa que ele não acredita. Se no fundo ele é preconceituoso, fica difícil ensinar o filho ou o aluno a respeitar.

Hoje, felizmente, já existem algumas leis que punem quem discrimina ou agride uma pessoa por intolerância, mas o ideal ainda é o indivíduo respeitar o outro por entender que ele merece respeito, não por medo de uma lei que sabemos, nem sempre é cumprida.

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