Mulher fácil é menos que bicho

Parto do princípio de que todos somos seres plurais, que não podem ser resumidos a classe social, categorias de trabalho, círculos de amizade, idade, sexo, identidade de gênero, etc. Somos fruto do nosso meio e de nossa criação (como não poderia deixar de ser), mas também de nossas contradições internas, leituras, medos, ousadias e opiniões. Arrisco-me a afirmar que somos não só passíveis de mudança, como também estamos em constante transformação pela própria natureza – “dádiva” que nos é, em verdade, uma obrigação, visto que o mundo não espera nem pára por ninguém. [Verdades bonitas ditas, verdades feias ainda por vir.]
Então, se somos tão complexos, por que constantemente nos reduzimos a tão pouco? Categorias reificantes (ou “coisificantes”) se tornam rótulos facilmente aceitos, naturalizados e culturalmente enraizados. Um exemplo? Mulher “fácil”, “rodada”, entre outros adjetivos pouco lisonjeiros, são frequentemente ouvidos em músicas, vistos na TV e postos em conversas informais. Outro, derivado desses termos é o (pre)conceito de “mulher para casar” e “mulher para curtir” – ênfase na sutileza dada à curtição, que quase sempre ganha outros nomes pouco nobres.
Aproveitar a juventude, se dedicar ao trabalho (mas não se esquecer das amizades e festas), ter experiências que só certos momentos proporcionam: essas são algumas vivências que todos julgam boas e saudáveis – a menos que se trate de uma mulher. Solteira, jovem e com vontade de curtir o momento? É “fácil”. Não presta para casar, não precisa ser tratada com respeito, não precisa que ninguém pergunte se ela está afim. É só chegar…E ai dela se negar a investida! Não merecedora de qualquer consideração ou livre arbítrio, a “mulher fácil” é menos que bicho. Faça dela o que quiser, fale o que bem entender, que ela é obrigada a aceitar. [Colocando em português bem claro, o preconceito se mostra como verdadeiramente é: violento, frívolo, ilógico e repulsivo.]
E a “mulher pra casar”? Ah…Essa sim, presta! Ela é a figura virginal e etérea, cuja conduta é um misto de princesas da Disney com santas católicas. Não tem passado, não erra nunca e jamais faria ou fará algo do qual não se orgulha. Será a “bonequinha” para colocar na estante e a esposa exemplar das propagandas de margarina – impecavelmente bem arrumada com seu avental, em um lar financeiramente próspero, que nunca precisará que ela entre para o mercado de trabalho ou que realize qualquer sonho além da maternidade, com dedicação total e irrestrita ao “seu homem”. [Mais uma vez, o preconceito nos soando louco quando explicitado].
Seres humanos, sejam homens e mulheres, não cabem em rótulos. A explicação mais provável para o “fenômeno” da categorização é a necessidade, por parte de cabeças pouco pensantes, de entenderem o mundo a seu modo – vazio. Pode ser também apenas uma desculpa para entretenimento raso, utilizado por pessoas de gosto duvidoso e baixeza no humor. Com pouco critério sobre o que deixa entrar, “rodada” e “fácil” é a mente que busca nos rotular.

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